Mickey 17
Robert Pattinson em ótimo momento, mas o novo sci-fi de Bong Joon-ho desanda no caminho.
Em Mickey 17, Bong Joon-ho parece menos interessado em conduzir uma narrativa clássica e mais empenhado em tensionar ideias, conceitos e limites. A premissa é estranha, provocadora e encontra em Robert Pattinson um ator disposto a abraçar o absurdo com entrega total. Os minutos iniciais funcionam muito bem justamente por isso, criando um universo desconfortável, irônico e curioso, que prende pela sensação constante de instabilidade.
O problema surge quando o filme tenta avançar. A sensação de descoberta dá lugar à insistência, e o que antes provocava passa a se repetir. As ideias não se aprofundam, apenas retornam sob novas formas, fazendo com que a crítica social perca força e passe a soar mais declarativa do que incisiva. A sátira cresce, mas sem a mesma inteligência que marcava o início.
Do ponto de vista visual, Bong segue preciso e inventivo. A escala do projeto nunca apaga sua identidade como diretor, e o elenco ajuda a sustentar o interesse mesmo quando o roteiro começa a patinar. Ainda assim, forma e conteúdo parecem caminhar em direções diferentes, especialmente quando o filme tenta transformar excesso em clímax narrativo.
No fim, Mickey 17 deixa uma impressão ambígua. Há talento, boas ideias e uma atuação central marcante, mas falta rigor para organizar tudo isso em algo mais coeso. O resultado é um filme que intriga mais pelo potencial do que pela realização, confirmando Bong Joon-ho como um cineasta inquieto, ainda que aqui menos preciso do que em seus melhores trabalhos.
